Plataforma de discussão sobre o futuro das cidades

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A pasta de dente, o marketing, e a poluição dos rios

É com alguma culpa que duas vezes por ano caminho ao consultório de meu dentista, e é com ainda mais culpa que saio de lá. Confesso que não consigo cumprir as pequenas tarefas que ele me passa, como escovar os dentes três vezes por dia ou usar o fio dental diariamente. Contudo, se mesmo um negligente como eu pudesse compartilhar os cuidados que tem sua boca com uma pessoa do começo do século XX, ela ficaria chocada. Como o livro O poder do hábito, de Charles Duhigg, narra, foi com muita relutância que o empresário Claude C. Hopkins acatou a ideia de lançar uma marca de dentifrício, a Pepsodent. Naquela época pouquíssimas pessoas escovavam os dentes.

 

Foi através de uma engenhosa publicidade que a Pepsodent conseguiu expandir sua marca e os oportunos cuidados bucais. A campanha convenceu as pessoas de que ficariam mais bonitas se escovassem os dentes e removessem as placas acumuladas. Porém, talvez o grande diferencial da Pepsodent em relação às tentativas anteriores tenha sido o fato de a pasta provocar formigamento na língua de quem a utilizava. Do ponto de vista marqueteiro, o importante não é que os dentes das pessoas estejam limpos: é que elas sintam que eles estão limpos.

 

Apesar de ter sido útil ao estimular a higiene bucal, essa lógica tem algumas variantes que surtem efeitos perversos para o ambiente e a sociedade. Por exemplo: da mesma forma que as pessoas anseiam pela língua formigante quando escovam os dentes, elas passaram a ansiar pela espuma quando lavam o cabelo, a louça, e até os próprios dentes...  Essa espuma, apesar de ter pouca ou nenhuma ação sobre a limpeza, tem efeitos na venda desses produtos e nas águas em que é despejada: ela impede que luz e oxigênio penetrem no rio, o que dificulta a vida de organismos dentro dele.

 

Um bom hábito a que os defensores do ambiente podem aderir é o de procurar por produtos de limpeza e higiene biodegradáveis. Esses produtos fazem menos espuma e certamente podem causar um estranhamento inicial, mas têm menos compostos danosos ao ambiente e são tão eficientes quanto os congêneres que produzem sensações “de limpeza” mais ostensivas. Do outro lado, no âmbito das políticas públicas, é válido que os governos estudem e considerem taxar mais os produtos nocivos ao meio ambiente. Sem essas taxas, o lucro e o benefício são auferidos pelas empresas e consumidores desses produtos, ao passo que os prejuízos ambientais são socializados.

 

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João Guilherme Martins